
domingo, 25 de abril de 2010
Aniversário do meu "Lugar de Mato Verde"

quarta-feira, 7 de abril de 2010
Encerrando Ciclos

Há exatamente seis anos, em um 7 de abril de 2004, por incrível que pareça, também em uma quarta-feira e por volta deste mesmo horário (19h00) eu estava sentada no colo do meu namorado, no sofá de uma antiga sala, aos prantos, completamente sem chão, com um futuro totalmente incerto até para o dia seguinte e em minhas mãos o resultado de um exame em que acusava que eu estava com câncer.
Passei horas tentando assimilar o que estava de fato acontecendo e nesse horário, quando finalmente “caiu a ficha”, caiu também o meu mundo. Aquele era um cenário de tristeza, de medo e de incertezas.
Aos 31 anos, com um futuro imenso pela frente, me via diante de uma luta com um inimigo oculto em que o meu maior desafio era, sem dúvida, o tempo.
Enquanto chorava em seu colo, ele tentava me dizer palavras de coragem, de carinho e de fortalecimento, mas eu estava tão perdida e desorientada que pouco consegui ouvir, no entanto, em um determinado momento ele me disse algo que me chamaria a atenção e que, mais pra frente seriam primordiais pra batalha que estava apenas começando. Ele disse que, embora pequenina, dentro de mim havia uma grande mulher, corajosa, destemida, guerreira e que, certamente passaria como um trator por cima desse ‘cancerzinho’ e que nada, nem ninguém seria maior que eu daquele momento em diante. Ele conhecia minha garra e conhecia também a pessoa que estava ali no colo dele e sabia que eu não entregaria os pontos jamais. Disse também que, com a cirurgia eu tiraria do meu peito, não apenas um tumor, mas também todas as coisas ruins que havia dentro dele, como mágoa, revolta, rancor, tristeza e tantos outros sentimentos negativos que teimavam em aparecer vez ou outra.
Foram 12 horas de choro, de angústia, de medo e de incertezas. Esgotada e cheia de medos, adormeci querendo que aquilo tudo não passasse de um pesadelo ou até mesmo de uma piada de extremo mau gosto. Infelizmente, quando o dia amanheceu, nada tinha mudado, a não ser o fato de que eu estava disposta a encarar como um leão todo e qualquer problema que viesse e, absolutamente nada me venceria enquanto eu estivesse na luta.
Uma semana depois fui até o centro onde freqüento e pedi auxílio aos meus queridos irmãos de luz. Naquele momento, o que eu mais necessitava era de equilíbrio. Muito mais do que isso, recebi o amparo que seria fundamental no período de luta que começava a minha vida. Ouvi que eu era muito mais forte do que realmente imaginava, que minha fé me mostraria que não há limites para vencer os obstáculos que pulam na nossa frente no decorrer da vida e que eu era como um bambu plantado em solo bom: enverga, mas não quebra jamais!
Primeiro veio a cirurgia pra retirada do tumor. Eu tinha pressa, queria me livrar daquilo logo e corri o quanto pude pra que tudo acontecesse em 4 semanas e, em 10 de maio meu dia se iniciaria dando entrada no hospital para a realização da cirurgia e o fim daquele pesadelo que estava vivendo dentro de mim e consumindo minhas energias de forma tão cruel, tão assustadora e tão absoluta.
Completamente leiga do assunto, desinformada e não querendo me precipitar em nada, achava que tudo havia acabado por alí e que a vida seguiria normalmente e seria essa, uma página virada na minha vida. O que eu não sabia é que só teria passado a primeira parte do problema, que muita luta ainda estaria por vir e então, a notícia tão bombástica quanto a primeira: era preciso fazer a tal quimioterapia.
Confesso que fiquei um pouco decepcionada com a notícia, pois meus planos eram outros, mas como tudo aquilo era pro meu bem, levantei a cabeça e enfrentei o que veio, sempre com muita fé, muito otimismo e com um sorriso no rosto pra mostrar que eu estava, de fato, muito bem.
O tratamento começou e com ele, todos os efeitos colaterais. Enjôo, perda de apetite, emagrecimento e a perda dos cabelos. Pode parecer estranho, mas a cada nova etapa, eu me lembrava das palavras do meu namorado, dizendo que tudo o que fosse de ruim seria jogado pra fora e me lembrava também que, embora tudo isso acontecendo, eu realmente estava forte como um bambu plantado em solo bom. Não caí e nem me permiti que isso acontecesse!
Não fosse pela pele quase cinza, pela ausência dos cabelos e pelo fato de estar magérrima, ninguém dizia que eu estava em pleno tratamento quimioterápico. Não sentia dó de mim, não perdi minha auto-estima e jamais permiti que as pessoas me vissem como alguém doente. Queria mostrar que era possível vencer e que qualquer pessoa que passe por isso pode também, vencer com tanta fé e com tanta determinação.
O tempo passou, o tratamento acabou e tudo voltou ao normal, como deveria ser, mas só uma coisa não voltou: a antiga Flávia! Aquela que adoeceu ficou lá no passado e uma nova e muito mais determinada mulher nasceu, cheia de coragem e de amor pela vida.
Me formei na faculdade, fui promovida no trabalho e comecei a trabalhar na casa espírita. Muitos projetos, muitos sonhos e um mundo totalmente novo pra ser desbravado por essa nova mulher que havia nascido. Iniciei alguns projetos sociais e hoje faço parte desse mundo acreditando que a solidariedade, o amor ao próximo, o desprendimento e a mão estendida aos mais necessitados são, de fato, alimento pra nossa alma.
Nesses 6 anos, alguns sustos nos exames de acompanhamento, pra mostrar que pra mim, a vida é completamente cheia de emoções. Foram muitos exames, muitas noites em claro, muita expectativa e, graças a Deus, muitas alegrias.
Hoje, a minha maior e mais esperada alegria aconteceu e eu não poderia deixar de compartilhar com todos os meus amigos queridos e meus familiares que estiveram comigo nessa luta tão grande. Fui ao consultório do meu médico e, após a análise de todos os exames, de uma análise clínica e até psicológica, saí de lá em êxtase com a notícia que há muito eu esperava: estou de alta!
Eu já sorri, já chorei, já cantei, já falei com dezenas de pessoas ao telefone, falei sozinha, dancei no meio da rua, rezei, agradeci a Deus, berrei de felicidade. Acredito que extravasei o grito que estava contido há dias, quando um diagnóstico suspeito nos deixou de alerta, mas que hoje tivemos a confirmação de que não passou de um susto.
Hoje um ciclo se encerra na minha vida e outros começam a se abrir pra que eu possa seguir adiante, com minhas metas e meus planos pra serem colocados em prática, sem o medo, mas com a certeza de que meu caminho está traçado em minha vida, por mim e por Deus, que me auxilia nos momentos mais difíceis.
Não imaginava que essa alegria contagiante, que transborda de dentro do peito aconteceria num dia como o de hoje, mas acho que foi uma forma de Deus me recompensar pelas horas tormentosas de 6 anos atrás, quando o futuro me parecia totalmente incerto. Há agora uma imensidão de vida na minha vida e eu estou pronta pra viver, pra ser feliz e pra cultivar outras novas sementes na minha vida e, tanto quanto tive urgência em vencer o câncer, tenho hoje urgência de viver minha vida com felicidade plena e absoluta e quero, sem dúvida nenhuma, meus amigos, minha família e meus amores por perto, cuidando sempre de todos e do lado espiritual, tão importante até hoje.
Só pretendo levar um pouco da minha história adiante, seja pessoalmente, seja por este blog, seja pelo meu site (Vida Sem Câncer), seja pela minha comunidade no Orkut. Não importa como, mas quero mostrar pra todos que é possível vencer, basta pra isso lutar e ter muito mais pressa que o câncer.
Vida, seja bem-vinda!
Quero deixar aqui os agradecimentos que não podem faltar em hora nenhuma: a Deus, à minha mãe, meu pai, meus irmãos e agregados, ao meu querido e amado ‘tio onco’, dr. Gelson, dr. Hézio que me acompanhou o tempo todo, à dra. Carmen que, como um anjo, salvou a minha vida, aos meus amigos de longe e de perto, os reais, os virtuais, os virtu-reais e os espirituais. Não vou citar nomes pra não ser injusta com ninguém, mas que sabem que esse agradecimento é pra cada um e em especial. Sintam-se beijados, abraçados e acariciados por mim, que de tão feliz, não estou me cabendo dentro!